Eu, Hermano Tavares — o que o jogo me ensinou sobre controle, perda e humanidade
Quando falo de gambling — apostas, jogos de azar, cassinos, bets online — eu não penso primeiro em dinheiro. Eu penso em pessoas. Em histórias que se repetem com pequenas variações, mas com o mesmo núcleo: alguém tentando regular emoções através do risco.
Sou médico psiquiatra, formado pela Universidade de São Paulo (USP):
https://www5.usp.br/
Minha trajetória profissional sempre esteve ligada ao Instituto de Psiquiatria (IPq) do Hospital das Clínicas da FMUSP:
https://www.ipqhc.org.br/
https://www.hc.fm.usp.br/
Foi nesse ambiente clínico que o jogo deixou de ser, para mim, um “tema interessante” e passou a ser um problema humano recorrente, profundo e frequentemente mal compreendido.
Por que o jogo nunca me pareceu apenas um mau hábito
Desde cedo, algo me incomodava na forma como o transtorno do jogo era tratado no discurso social. A explicação mais comum era simples demais: falta de caráter, irresponsabilidade, ganância. Mas essa narrativa não se sustenta quando você senta diante de alguém que:
- perdeu todo o salário em poucas horas,
- mentiu repetidamente para a família,
- prometeu parar inúmeras vezes,
- sente vergonha, culpa e, ainda assim, uma urgência quase física de voltar a apostar.
Na clínica, o padrão aparece com clareza:
- o jogo começa como entretenimento;
- passa a funcionar como anestesia emocional;
- evolui para craving;
- culmina no chasing, a perseguição das perdas.
Nesse ponto, fica evidente para mim que não se trata de escolha simples. Trata-se de um transtorno do controle do impulso e da regulação emocional.
Quando o gambling se tornou o centro do meu trabalho
Em determinado momento da minha carreira, percebi um paradoxo no Brasil: o jogo estava cada vez mais presente na vida cotidiana, mas quase inexistente nas estruturas formais de tratamento e pesquisa.
Durante meu período de pós-doutorado em pathological gambling na University of Calgary:
https://www.ucalgary.ca/
tive contato com modelos clínicos e metodológicos mais consolidados. Aquilo deixou claro que o problema não era falta de teoria — era falta de estrutura institucional.
A pergunta que passou a guiar meu trabalho foi direta:
como transformar sofrimento real em conhecimento clínico confiável e aplicável?
Onde a pesquisa ganhou endereço: os programas que criei
Eu nunca acreditei que fosse possível estudar gambling seriamente sem contato direto com quem sofre com ele. Por isso, fundei e coordeno dois programas ambulatoriais que se tornaram o eixo do meu trabalho clínico e científico.
PRO-AMJO e PRO-AMITI
Eles não surgiram como projetos acadêmicos abstratos. Surgiram da necessidade de acompanhar pessoas ao longo do tempo, observar recaídas, avanços, resistências e mudanças reais.
| Programa | Instituição | Foco | Função clínica e científica | Fonte |
|---|---|---|---|---|
| PRO-AMJO | IPq / Hospital das Clínicas (USP) | Transtorno do jogo | Tratamento e acompanhamento contínuo de jogadores patológicos, com geração de dados clínicos reais. | gov.br |
| PRO-AMITI | IPq / Hospital das Clínicas (USP) | Transtornos do impulso | Integra o gambling a outros quadros de impulsividade e compulsão, ampliando a compreensão diagnóstica. | gov.br |
Esses programas me permitiram algo fundamental: observar o jogo como processo, não apenas como crise pontual.
O que precisei estudar para entender o transtorno do jogo
Meu trabalho científico no gambling se organizou em torno de quatro perguntas centrais.
Quantas pessoas são afetadas
Sem dados de prevalência, o debate vira opinião. Estudos que publiquei sobre prevalência e correlatos sociodemográficos ajudaram a enquadrar o gambling como tema de saúde pública.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20483469/
O que acontece emocionalmente
Craving, excitação, ansiedade e culpa formam um ciclo poderoso. Comparei esses estados emocionais em jogadores patológicos e dependentes de álcool para entender semelhanças e diferenças.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17174480/
Impulsividade ou compulsão
O transtorno do jogo não se encaixa perfeitamente em uma única categoria diagnóstica. Explorar suas fronteiras com o transtorno obsessivo-compulsivo ajudou a refinar abordagens terapêuticas.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/17639253/
Como medir melhora de forma honesta
“Parar de jogar” não é um critério suficiente. Por isso participei do desenvolvimento e validação de escalas de acompanhamento que avaliam craving, sofrimento, relações sociais, dívidas e autonomia.
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27828667/
Alguns dos estudos que publiquei sobre gambling
| Ano | Estudo | Tema central | Link |
|---|---|---|---|
| 2014 | Gambling in Brazil: a call for an open debate | Enquadramento público e necessidade de debate | PubMed |
| 2010 | Lifetime prevalences and socio-demographic correlates | Prevalência do jogo no Brasil | PubMed |
| 2007 | Craving and emotional states | Craving em jogadores e alcoólicos | PubMed |
Onde atuo hoje
Atuo como professor associado e livre-docente no Departamento de Psiquiatria da USP e coordeno programas clínicos no IPq. Essa posição me permite manter o que considero essencial: o diálogo permanente entre ciência, clínica e realidade social.
Perfis institucionais e acadêmicos:
https://orcid.org/0000-0002-6632-2745
https://scholar.google.com/citations?hl=en&user=nJAblcwAAAAJ
https://bv.fapesp.br/en/pesquisador/40830/hermano-tavares/
https://www.gov.br/mds/pt-br/obid/entrevistas/hermano
O que aprendi observando o “boom” das apostas
Depois de muitos anos lidando com o transtorno do jogo, minha conclusão é simples:
o gambling patológico não é sobre ganhar dinheiro. É sobre tentar regular emoções através do risco.
Enquanto o debate no Brasil permanecer restrito a mercado, publicidade ou moral, continuaremos perdendo pessoas pelo caminho. O jogo precisa ser tratado como questão de saúde mental, com prevenção, tratamento acessível e responsabilidade social.
É isso que orienta meu trabalho — todos os dias, dentro e fora da clínica.
O que mudou com o jogo online — e por que isso me preocupa
Quando comecei a trabalhar com transtorno do jogo, o cenário era outro. O acesso era mais limitado, o ato de jogar exigia deslocamento, tempo, exposição social. Havia barreiras naturais. Hoje, com o jogo online, essas barreiras praticamente desapareceram.
O celular virou cassino portátil. O horário deixou de existir. O dinheiro perdeu a materialidade. E isso muda profundamente a dinâmica do transtorno.
Na clínica, comecei a perceber novos padrões:
- pessoas jogando em silêncio absoluto, de madrugada, enquanto a família dorme;
- apostas fragmentadas, repetidas centenas de vezes ao dia;
- perda da noção de valor (“foram só pequenos valores”, até que a soma explode);
- associação direta entre emoção negativa e clique imediato.
O jogo online acelera tudo. A escalada é mais rápida. A queda também.
O cérebro humano não foi feito para lidar com recompensas intermitentes, estímulos constantes e sensação de quase ganho em sequência infinita. Quando esse ambiente encontra alguém vulnerável — por impulsividade, ansiedade, depressão ou momento de crise — o risco cresce exponencialmente.
Publicidade, normalização e o discurso do “controle”
Outro ponto que passou a me inquietar cada vez mais é a forma como o jogo vem sendo normalizado no discurso público. A publicidade raramente fala de perda. Ela fala de controle, diversão, estratégia, inteligência. Cria-se a ilusão de que apostar é apenas uma extensão da competência pessoal.
Na prática clínica, o efeito disso é claro.
Muitos pacientes chegam dizendo:
- “Eu achei que dava pra controlar.”
- “Eu pensei que, se eu estudasse mais, perderia menos.”
- “Todo mundo está fazendo, achei que o problema era comigo.”
Esse tipo de discurso desloca a responsabilidade do sistema para o indivíduo, e isso aumenta a vergonha, atrasa a procura por ajuda e aprofunda o isolamento.
Não sou contra entretenimento. Não sou contra escolha individual. Mas sou profundamente crítico quando um produto potencialmente aditivo é promovido como se fosse neutro — especialmente em um país com baixa educação financeira e pouco acesso a tratamento em saúde mental.
O sofrimento que quase nunca aparece nas estatísticas
Existem perdas que não entram em planilhas.
Ao longo dos anos, ouvi histórias que dificilmente aparecem em relatórios econômicos:
- casamentos corroídos não por traição, mas por mentiras sucessivas;
- pais que evitam os filhos por vergonha;
- profissionais competentes que passam a se ver como “fracassos”;
- jovens que associam valor pessoal à última aposta.
O transtorno do jogo produz um tipo específico de sofrimento: ele mistura culpa, esperança e humilhação. A pessoa sabe que está se machucando, mas acredita, paradoxalmente, que a próxima aposta pode resolver tudo.
Essa contradição interna é devastadora. E é por isso que tratar gambling exige mais do que conselhos racionais. Exige tempo, vínculo, estrutura e método.
Por que insistir em acompanhamento de longo prazo
Uma das coisas que aprendi cedo é que o transtorno do jogo raramente se resolve com intervenções pontuais. Parar por algumas semanas não significa estar bem. Às vezes, significa apenas estar em contenção.
Por isso, sempre defendi acompanhamento de médio e longo prazo. Não para vigiar, mas para acompanhar processos:
- como a pessoa lida com frustração sem o jogo;
- o que ocupa o espaço deixado pela aposta;
- como ela reconstrói confiança consigo mesma e com os outros;
- quais situações funcionam como gatilho mesmo depois de meses.
É aqui que escalas de follow-up fazem sentido. Elas ajudam a transformar percepções subjetivas em algo observável, discutível e ajustável. Não substituem a escuta clínica, mas a complementam.
Prevenção: o que quase nunca é feito
Quando se fala em gambling, quase sempre o foco está em quem já adoeceu. Mas, do ponto de vista de saúde pública, a prevenção é essencial — e ainda muito pouco explorada.
Vejo três frentes fundamentais:
- Educação emocional, não apenas financeira
Ensinar jovens a reconhecer impulsos, lidar com frustração, entender risco e probabilidade. - Comunicação honesta
Publicidade que reconheça riscos reais, não apenas slogans vazios de “jogue com responsabilidade”. - Acesso facilitado a ajuda
Quanto mais difícil é chegar a um serviço, mais tarde a pessoa procura — e mais grave costuma ser o quadro.
Sem essas frentes, o sistema funciona como uma máquina de produção de casos clínicos.
Regulação não é censura, é cuidado
Muitas vezes me perguntam se sou “a favor” ou “contra” a regulação do jogo. Essa pergunta, para mim, é mal colocada. A questão não é ser a favor ou contra. A questão é para quem o sistema está funcionando.
Regulação, do ponto de vista da saúde mental, deveria significar:
- limites claros de exposição;
- proteção de grupos vulneráveis;
- mecanismos reais de autoexclusão;
- transparência sobre odds e perdas;
- financiamento de tratamento e pesquisa.
Sem isso, o discurso de liberdade vira assimetria: plataformas com tecnologia e dados de um lado, indivíduos vulneráveis do outro.
O que ainda precisamos pesquisar
Apesar de décadas de trabalho, tenho plena consciência de que ainda sabemos pouco. Algumas perguntas continuam abertas e urgentes:
- como o jogo online altera o desenvolvimento emocional de jovens?
- quais intervenções funcionam melhor em recaídas repetidas?
- como integrar tratamento de gambling com outras dependências comportamentais?
- qual o impacto de bônus, cashback e gamificação no cérebro vulnerável?
Responder a isso exige investimento, colaboração interdisciplinar e, sobretudo, vontade política de olhar para o problema sem romantização.
O lugar da escuta em tudo isso
Se há algo que nunca mudou no meu trabalho, é a centralidade da escuta. Antes de escalas, diagnósticos ou artigos, existe alguém tentando dar sentido ao próprio sofrimento.
Muitas vezes, o jogo é apenas a linguagem que a pessoa encontrou para falar de algo mais profundo: vazio, ansiedade, sensação de inadequação, necessidade de reconhecimento.
Quando conseguimos escutar isso — de verdade — o tratamento deixa de ser apenas “parar de jogar” e passa a ser reconstruir formas mais saudáveis de existir.
O que continuo dizendo, apesar de tudo
Depois de tantos anos trabalhando com gambling, continuo repetindo a mesma ideia, porque ela segue sendo ignorada:
o transtorno do jogo não é exceção, é consequência.
Consequência de um sistema que oferece risco sem oferecer suporte. Consequência de uma cultura que valoriza ganho rápido e silencia a perda. Consequência de uma sociedade que fala pouco sobre saúde emocional.
Meu trabalho sempre foi tentar iluminar esse ponto. Com dados, com clínica, com cuidado e com responsabilidade.
E enquanto houver pessoas perdendo mais do que dinheiro no jogo, esse trabalho continua fazendo sentido.


